3. ESPECIAL 31.7.13

 BOM ESTARMOS AQUI, BOTANDO CRISTO NA NOSSA VIDA.  Papa Francisco, na missa de acolhida da Jornada Mundial da Juventude, na Praia de Copacabana.

A JUVENTUDE  A JANELA PELA QUAL O FUTURO ENTRA NO MUNDO.  Francisco, em seu primeiro pronunciamento no mundo.

1. O CALOROSO ENCONTRO DO PAPA COM AS RUAS
2. O RIO NO PASSOU NO TESTE
3. RETRICA DA HONESTIDADE
4. ENSINANDO A REZAR

1. O CALOROSO ENCONTRO DO PAPA COM AS RUAS
Francisco, o papa de jeito simples, sorriso aberto e mos estendidas, cai nas graas do povo em sua visita ao Brasil. Com isso, d novo alento a uma Igreja Catlica que encolhe e acena com um futuro melhor para jovens desencantados com o mundo que est a.

Tudo isso  para mim'?", espantou-se o papa Francisco ao abrir, num gesto inesperado para os que o acompanhavam, a janela do Fiat Idea prata que o conduzia e ver a multido. Ele havia desembarcado pouco antes no Rio de Janeiro, em sua primeira viagem internacional, e, alerta e bem-disposto aos 76 anos, no deixava entrever nenhum trao de cansao pelas doze horas sem pregar os olhos no avio. Nas caladas, milhares de pessoas se acotovelavam, telefones celulares a postos para um registro de Francisco, que ao longo da semana iria se acostumando s massas atradas pela voz calma e clara, pela mensagem direta e pelo estilo simples deste argentino que poucos conheciam e que atraiu  Jornada Mundial da Juventude mais de 1 milho de pessoas. Em Aparecida, ele se deixou fotografar com o pessoal da cozinha e agradeceu um a um pela refeio em que se fartou de pur de banana e doce de leite. Na favela que visitou, ao passar por um templo evanglico, surpreendeu ao pegar na mo de dois pastores na porta e pedir: "Rezem por mim". Juntos, eles recitaram o Pai-Nosso. Na missa na Praia de Copacabana, at um certo tom de samba (obviamente involuntrio) seu discurso ganhou. "Bote f, e a vida ter um sabor novo", proclamou o pontfice. A plateia adorou. 
     Na ltima sexta-feira, quando voltou a Copacabana para assistir  encenao da Via Crucis, Francisco j estava  definitivamente instalado no posto de  papa do povo. Faltando dois dias para ir embora, o balano da visita era excepcional para uma igreja que sofre com a evaso do rebanho: em dias frios e chuvosos, no Rio dos protestos zangados (que, por sinal, no arrefeceram), o pontfice iluminou as legies de catlicos que tomaram conta da cidade com mensagens capazes de reiterar de forma palatvel dogmas difceis de engolir. Aos jovens, seu pblico prioritrio, falou dos riscos de valores efmeros como sucesso e poder, aleitou para as atitudes egostas, convocou-os a no esmorecer na luta contra a corrupo e reforou a cruzada contra a pobreza e a desigualdade social que j promovia quando ainda era Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires.  importante, disse, "no se acostumar ao mal, mas venc-lo". 
     O jesuta mais franciscano da Santa S embarcou em Roma carregando a prpria pasta de couro que leva para todo lado. A que trouxe ao Brasil era nova, comprada na Itlia, e pesava quase 2 quilos. Dentro dela havia um ncessaire simples com objetos de higiene pessoal, os discursos que escreveu para fazer aqui e a Liturgia das Horas, que contm as oraes recitadas ao longo do dia. No avio, cumprimentou os jornalistas, leu o L'Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, e passou a maior parte da viagem de p no corredor da primeira classe, conversando com os outros prelados; Francisco tem dores crnicas no quadril e no joelho e prefere no ficar sentado muito tempo. s vezes era ele de p e o interlocutor sentado, algo impensvel em outros papados  pouca gente tinha tamanha intimidade com Bento XVI, por exemplo, que na viagem ao Brasil, em 2007, teve uma cama  disposio no avio. 
     As comparaes entre esse papa, que assumiu o Trono de Pedro em maro, e seus dois antecessores, Bento XVI e Joo Paulo II, ressaltam as virtudes de Francisco neste momento duro para a Igreja Catlica, atolada em denncias de corrupo e de pedofilia e enredada em regras que s fazem afastar os fiis. "Ele tem tudo para fazer a ruptura de um estilo caricato de exercer o poder na Igreja", diz Afonso Soares, professor de cincia da religio na PUC-SP. O sopro de renovao que o novo pontfice encarna se reflete tanto nos depoimentos que ilustram estas pginas quanto nos anseios expostos em uma pesquisa realizada por VEJA entre os jovens participantes da Jornada (veja na pg. 48). 
     A obrigatria visita  cidade de Aparecida, em So Paulo,  um espelho das diferenas entre os trs papas. Todos foram rezar diante da imagem da padroeira do Brasil. Joo Paulo II circulou pela praa da baslica sob uma chuva de ptalas. Bento XVI a reverenciou. Francisco orou em silncio, com olhar de devoo explcita  exatamente como qualquer romeiro faria. O clice da missa que rezou na cidade, obra encomendada ao artista plstico paulista Cludio Pastro, causou estranheza no alto escalo da comitiva. " simples demais e as medidas so desproporcionais", desdenhou um prelado. Em outros tempos, a pea seria sumariamente trocada. Mas ningum se atreveu a expor sua opinio a Francisco, certo de que no encontraria apoio. E de fato o papa usou o tal clice na missa, sem nenhuma ressalva. Tambm no se furtou a ir s ruas: ao ver um cadeirante junto  barreira de proteo, mandou parar o papamvel, desceu e foi abeno-lo. Por alguns minutos, ficou rodeado pelo povo. Alis, cada passagem do papamvel, em qualquer lugar, era acompanhada de gente que tentava se aproximar do pontfice, para apreenso e susto de uma segurana cheia de furos no lado brasileiro (veja a reportagem na pg. 54). 
     Outros milhares de pessoas enfrentaram a chuva para ouvir o papa na favela da Varginha, na Zona Norte do Rio. Antes do discurso, no qual elogiou a disposio dos brasileiros de sempre "pr mais gua no feijon" para alimentar  quem precisa, ele proporcionou ao eletricista Manoel da Penha, 58 anos, e sua mulher, Lcia, 62, a maior emoo de sua vida: fez-lhes uma visitinha. A casa estava entre sete pr-selecionadas, e vinte parentes e amigos se apertavam com o casal na sala decorada com bales e um  pster do pontfice. "Ele chegou sorrindo e cumprimentou cada um. Depois pegou no colo as quatro crianas que estavam l e as beijou", conta Lcia. Todos ganharam um tero e uma bno em portunhol. Em seguida, o papa rezou na pequena capela local; l, num dado momento, parou, sem poder caminhar entre tantas pessoas que o cercavam. Joo Paulo II, em 1980  na primeira e monumental visita de um papa ao Brasil , tambm esteve em uma favela, a do Vidigal, e tambm entrou em uma casa. Mas dele se aproximaram sobretudo religiosos, autoridades e moradores autorizados. 
     Ser simples, no caso de Francisco, no tem nada a ver com despreparo. "O papa pertence a uma das ordens mais sofisticadas e competentes da histria da Igreja, a dos jesutas.  uma pessoa bem formada intelectualmente", diz Roberto Romano, professor de tica e filosofia da Unicamp. Mas todos os que estiveram com ele, sem exceo, comentam sua simplicidade. Na residncia onde se hospedou, o chef Pasquale Mancini, do restaurante Terrao Itlia, de So Paulo (selecionado aps duas visitas secretas de emissrios do Vaticano), diz que Francisco come pouco de tudo (pappardelle com ragu de coelho, berinjela  parmigiana, cordeiro, risoto de aspargos, sufl de goiaba) e s vezes toma uma taa de vinho nacional no jantar. 
     Avesso a ostentaes, seu anel papal  de prata dourada e a cruz sobre o peito, de ferro. At no sapato  franciscano  sobretudo se comparado a Bento XVI, clebre pelo calado vermelho, pelo gosto por adereos e pelos culos escuros de grife. Francisco manda fazer seus sapatos (pretos) na Argentina, sob medida (tem p chato), e os usa at que furem. Nos primeiros dias como papa, seu calado era francamente surrado: no Brasil, o salto parecia meio gasto. So detalhes, mas fazem toda a diferena para uma igreja que perde fiis, num momento do mundo em que, sobretudo entre os jovens, a desesperana impera. 

A JOVEM VOZ DOS CATLICOS
O Instituto Ipsos MediaCT, com o apoio do departamento de pesquisa e inteligncia de mercado da Abril, ouviu 427 peregrinos de 16 a 40 anos que participaram da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro  apenas 36% deles estiveram tambm nas manifestaes de rua no Brasil em junho.
1- O papa Francisco disse em seu primeiro discurso no Brasil que "a juventude  a janela pela qual o futuro entra no mundo". Voc concorda?
SIM 98%

2- Pensando no futuro, se depender de mim a Igreja Catlica ser idntica ao que  nos dias atuais 
75% concordam
22% discordam total ou parcialmente
3% nem concordam nem discordam

3- Um catlico pode no concordar 100% com as orientaes da Igreja e continuar catlico?
SIM 62% 
NO 38%

4- Um catlico tem o direito de lutar para mudar as posies da Igreja a respeito do aborto, do sexo antes do casamento ou da unio entre homossexuais ou ele deve abandonar a religio caso no concorde com alguma ou algumas dessas posies?
64% dizem que ele tem o direito de lutar por mudanas
36% acham que ele deve abandonar a religio 

5- A fora do cristianismo depende mais do nmero de convertidos ou da f dos cristos, mesmo em menor nmero?
69%, da f dos cristos
25%, de ambos
6%, do nmero de convertidos

6- Se voc se casar com uma no catlica (ou um no catlico), seus filhos sero criados na sua religio ou na do companheiro?
61% na religio catlica
36% no sabem
3%, na religio do companheiro

DANIELA SIMO, 27 anos
Advogada, Rio de Janeiro
"O papa Francisco tem tudo para reanimar a Igreja. Os ritos ainda so repetidos com muita pompa e pouca emoo."

MICHEL KAZMIERSKI, 21 anos
Estudante de engenharia civil, Joinville (SC)
"Gosto do jeito como ele fala, olhando no olho e no s cumprindo o protocolo."

TORSTEN MHLBERG, 29 anos
Bombeiro, Alemanha
"A Igreja precisa de um choque de tica. Francisco est sendo duro com quem merece."

SANDRA DE CAMARGO, 53 anos
Dona de casa, Rio de Janeiro
"Vejo nele um carisma e uma empatia com a juventude que faltavam a Bento XVI."

KATIA MARTINS, 61 anos
Funcionria pblica, Rio de Janeiro
"No sou catlica praticante, mas no podia deixar de sair de casa para ver um papa que no teve medo de vir ao Brasil neste momento to complicado.

ANTNIO BONFADINI, 55 anos
Engenheiro militar, Rio de Janeiro
"As denncias contra a Igreja davam vergonha de ser catlico. Francisco trouxe o orgulho de volta."

RIAD PIRES, 31 anos
Jogador de vlei, Rio de Janeiro
"O papa j comea a fazer o que tem de ser feito ao reformar a Cria e  implacvel com os pedfilos.

TAMIRIS GUALBERTO, 19 anos
Estudante de administrao, So Bernardo do Campo (SP)
"Ele comeou a romper com ritos e burocracias que faziam do papa um boneco em redoma de vidro.

AMANDA LOPES, 18 anos
Estudante de moda, Vila Velha (ES)
"Talvez nem mesmo Francisco consiga encurtar a distncia que separa a velha e tradicional Igreja do mundo real.

VITRIA ROSA, 18 anos
Aluna do ensino mdio, Rio de Janeiro
"No  s a humildade de Francisco que atrai as pessoas, mas tambm a paz que ele transmite."

PRICILA GUSTMANN, 20 anos
Estudante de farmcia, Sinop (MT)
"Esse  um papa revolucionrio. Ele voltou o olhar para os jovens e isso me fez sentir mais ligada  Igreja."

KARINA BANDEIRA, 17 anos
Aluna do ensino mdio, Fortaleza
"Esse papa se coloca bem longe do pedestal. Espero que ele inspire outros religiosos daqui para a frente."

ALINE PESSOA, 25 anos
Museloga, Rio de Janeiro
"A Igreja precisava de algum com mais simplicidade e simpatia, qualidades que so bem visveis em Francisco."

CHARLOTTE VENZKE, 25 anos
Engenheira, Alemanha
"Sou alem, mas no me identificava com Bento XVI. Ele estava olhando para trs. Espero que o papa Francisco seja mais aberto para as questes atuais e mire o futuro.

PRISCILA ARAJO, 50 anos
Funcionria de uma agncia de seguros, Rio de Janeiro
"Agora, sim, o estilo do papa  coerente com o discurso de ajuda aos menos favorecidos."

DANILO PESSOA, 20 anos
Estudante de letras, Braslia
"O papa j est contribuindo para mudar a imagem da Igreja. Que as missas acompanhem essa mudana!"

LORENA ANDRADE, 17 anos
Aluna do ensino mdio, Fortaleza
"O jeito humilde do papa Francisco est calando at mesmo aqueles que so mais crticos da Igreja."

FABIANA MANUEIRA, 22 anos
Estudante de direito, Londrina (PR) 
"Ele est dando uma lio de simplicidade ao Brasil. Imagine andar com o papamvel aberto!

KARINA SALGADO, 21 anos
Estudante de nutrio, So Gonalo (RJ)
" a primeira vez que vejo uma multido de catlicos to unida. E o grande responsvel por esse espetculo  o papa Francisco."

MARIA LUISA OLIVA, 16 anos
Aluna do ensino mdio, Chile
"Bento XVI era austero, rgido, fechado. Francisco  humilde e se abre ao povo.

ANGEL DAZ, 43 anos
Padre, Madri
"Francisco tem cara de velhinho aposentado, mas o esprito  de um jovem que veio para mudar a Igreja."

SOLANGE DOURADO, 45 anos
Bancria, Campo Grande
"O carisma de Francisco est fazendo as pessoas ter orgulho de estar na Igreja."

RIKA CUNHA, 32 anos, com a filha Ana Luisa, de 4
Fisioterapeuta, Muria (MG)
"Sou de um lugar onde muita gente  forada a se casar para balizar os filhos. Felizmente, o papa  contra isso."

LETCIA VON STEIN, 17 anos
Aluna do ensino mdio, Londrina (PR)
"O pessoal no estava to animado com a Jornada antes de Francisco. Ele nos magnetizou com seu carisma."

ABAIXO OS LUXOS E AS MORDOMIAS
ESTA VAI COMIGO
 o prprio Francisco quem carrega sua pasta de couro para l e para c, desde quando era arcebispo. A atual  novinha e foi comprada na Itlia. Ele a levava na mo quando embarcou para o Brasil. Trazia um ncessaire pequeno, os discursos que escreveu para pronunciar aqui e o livro Liturgia das Horas, com as oraes a ser feitas ao longo do dia.

PRETO  O NOVO VERMELHO
Saem os sapatos rubros de Bento XVI, entram os de Francisco, bem gastos, feitos sob medida porque ele tem p chato.

BRILHO ZERO
A cruz que os papas carregam sobre o peito costuma ser de ouro, coberto de pedrarias, nas grandes ocasies. Francisco continua com a mesma que usava como arcebispo, feita de ferro.

S PARECE
Nada de ouro macio, como  de praxe - este anel do pescador, um dos smbolos mais altos do poder papal,  de prata dourada.

"REZE POR MIM"
No voo da Alitalia que trouxe o papa Francisco ao Brasil havia 68 jornalistas de quinze nacionalidades. VEJA foi a nica revista do pas com um de seus profissionais a bordo. Na viagem papal, o cumprimento individual do pontfice aos reprteres era um ritual aguardado com muita ansiedade. A editora de VEJA Adriana Dias Lopes aproximou-se de Francisco. Fez meno de beijar a mo de Bergoglio, movimento simblico de respeito ao santo padre. Ele a interrompeu, segurando firmemente sua mo. E falou: "Reze por mim", repetindo as palavras ditas  multido na Praa de So Pedro na noite de sua eleio
     
COLABORARAM ALEXANDRE ARAGO, LVARO LEME, CINTIA PIMENTA, GABRIELE JIMENEZ, NATHLIA BUTTE E PIETER ZALIS


2. O RIO NO PASSOU NO TESTE
Com erros na segurana, milhares de pessoas sem transporte e muito improviso, o Rio  reprovado em organizao de megaeventos. Ser preciso melhorar bastante para no fazer feio na Copa e na Olimpada.
MALU GASPAR E LESLIE LEITO

     A mesma cena que emocionou o papa Francisco diante dos fiis que o aguardavam ansiosamente na chegada ao Brasil se transformou, ao longo de sua passagem pelo Rio, no retrato mais expressivo do despreparo da cidade para receber os megaeventos que esto por vir. Apesar de os policiais terem ensaiado nas vsperas o trajeto do Aeroporto do Galeo  Catedral Metropolitana, na hora H deu tudo errado. Os batedores, alguns trazidos de fora do Rio pela Polcia Rodoviria Federal, tiveram um momento de hesitao diante da avenida com duas pistas e frearam as motos. Sem saber que rumo seguir, o motorista italiano do papa tomou uma pista lateral cheia de nibus estacionados. O carro ficou parado na rua, sem nenhum anteparo contra a aglomerao humana. Para o pontfice, foi um momento de jbilo. Para seus guarda-costas, razo para desespero (veja o quadro na pg. 57). Aquela foi apenas a primeira de uma srie de falhas de segurana, de planejamento e de logstica que atrapalharam a vida de 1,5 milho de pessoas que foram  Jornada Mundial da Juventude. Faltou transporte em vrias ocasies. A missa de encerramento teve de ser transferida na ltima hora. Policiais infiltrados nos protestos contra o governador Srgio Cabral engrossaram os grupo  de vndalos que faziam baderna a poucas quadras de um evento com o papa. 
     A misso de garantir a segurana do pontfice foi dividida entre cinco rgos que passaram boa parte do tempo se estranhando: a Secretaria Extraordinria de Segurana para Grandes Eventos, as polcias militar, civil e federal e o Exrcito. O fato de no haver um comando nico atrapalhou. H dois meses, por exemplo, uma reunio para estabelecer quem comandaria os postos especiais de patrulhamento a ser instalados na Praia de Copacabana acabou entre gritos e socos na mesa, sem que nada fosse decidido, porque nenhuma fora aceitava receber ordens das outras (os tais postos no saram do papel). Ao explicar a confuso na chegada do papa, o secretrio municipal de Transportes do Rio, Carlos Roberto Osrio, exps o erro da comitiva, quase toda vinculada ao governo federal  o que fez o prefeito Eduardo Paes tomar uma descompostura do secretrio-geral da Presidncia da Repblica, Gilberto Carvalho. Paes ento vetou novas declaraes sobre o episdio, mas os batedores foram trocados por policiais militares do Rio. Mesmo lances em tese positivos se transformaram em fonte de intriga. Diante da descoberta, pela Fora Area, de uma bomba num banheiro do Santurio de Aparecida, a PF levantou a suspeita de que os militares tivessem plantado o explosivo para faturar politicamente. Os rgos de segurana tiveram ainda de lidar com a insistncia do papa em se misturar com o povo. "Para todas as nossas restries, a resposta do Vaticano era sempre a mesma: o papa  um chefe de estado e  dele a ltima palavra", diz um membro da organizao. 
     O improviso e a falta de coordenao tambm fizeram vtimas no sistema de transporte da cidade. O metr sofreu duas panes nos primeiros dias da Jornada. Na pior delas, o rompimento do cabo de energia de uma estao interrompeu a circulao de todos os trens por mais de duas horas, deixando centenas de turistas presos em vages escuros e lotados. Sem metr, os fieis sobrecarregaram nibus e trens. Quem no conseguiu embarcar teve, literalmente, de peregrinar. Nessa madrugada, dezenas de jovens que estavam hospedados em favelas distantes do centro (o que, por si, j foi uma medida temerria) perambularam por algumas horas sem transporte pela Avenida Brasil, via expressa incrustada em uma regio violenta, at que dois PMs arregimentassem vans para lev-los para casa. Do outro lado da cidade, os 120.000 visitantes que se alojaram nos arredores de Guaratiba, onde seriam realizadas a viglia e a missa final da JMJ. Viram-se, de repente, a 50 quilmetros das celebraes. O local, rea particular cedida  Arquidiocese do Rio, vinha sendo preparado fazia meses. Alm da drenagem e da terraplenagem, pagas pela Igreja, o lugar recebeu melhorias que custaram  prefeitura 6 milhes de reais. Mesmo assim, no resistiu s chuvas e foi convertido em lamaal. S a se descobriu que a organizao no tinha um plano B para o caso de chover. A soluo foi transferir os eventos para Copacabana. 
     A essas agruras somaram-se as manifestaes contra o governador Sergio Cabral, que povoam a vida dos cariocas h quase dois meses e ajudaram a derrubar sua aprovao popular para 12%, o nvel mais baixo at hoje. Nas ltimas semanas, a polcia passou a infiltrar homens nos protestos, alguns em meio aos vndalos, usando mscaras e adotando uma atitude agressiva. S nos arredores do Palcio Guanabara, onde o lder da Igreja Catlica recebia as boas-vindas da presidente Dilma Rousseff, havia trinta policiais civis e algumas dezenas de PMs infiltrados. A misso era identificar  baderneiros, mas, pouco discretos  todos traziam a mesma pulseira preta no pulso direito, por exemplo , vrios acabaram identificados nas redes sociais. Por toda a semana pairou a suspeita de que os policiais disfarados estivessem atirando pedras e coquetis molotov para incitar a violncia e indispor a opinio pblica com os manifestantes. At a priso de um funcionrio da Agncia Brasileira de Inteligncia  (Abin) num tumulto no Leblon foi apontada como indcio dessa ttica. Nada, no entanto, ficou provado. De concreto, at agora, s o que se viu foi um inaceitvel grau de improvisao onde deveria haver uma recepo impecvel ao papa e aos visitantes. Ainda bem que Deus  brasileiro. 

JEAN CARLOS MAIA, 33 anos
Terapeuta, Rio de Janeiro
"Com esse papa, tenho mais vontade de fazer parte da igreja. Sinto que ele vai limpar a sujeira."

JEANE MOREIRA, 30 anos
Tcnica em enfermagem, Belm
"A igreja est muito fechada hoje e no vejo ningum mais indicado para abrir suas portas do que Francisco."

ZILDA DA VEIGA, 86 anos
Aposentada, Recife 
"O Francisquinho  uma figura esplndida. Ele no quer luxos. Abraa a pobreza de verdade."

DANIELA CONEGLIAN, 29 anos
Jornalista, Bauru (SP)
"O discurso do papa em prol da simplicidade  muito convincente porque  assim que ele age."

BERNARDO GUARNIER, 20 anos
Estudante de oceanografia, Rio de Janeiro
"Em Aparecida, ele andou no meio da galera! D para ver que no  s marketing. O papa  simples de verdade. Acho que vai fazer uma revoluo na Igreja."

RAFAELA DE PAIVA, 22 anos
Estudante de engenharia ambiental, Itabora (RJ)
"Francisco vai humanizar a Igreja e recuperar antigos valores que estavam perdidos, como a solidariedade."

MARIA DO HORTO, 71 anos
Aposentada, Uruguaiana (RS)
"Chorei muito quando vi o papa. Desde que apareceu naquela janela em Roma, ele me emocionou."

PAULO BOHN, 53 anos
Corretor de imveis e seguros, Venncio Aires (RS)
"No acredito que as questes tabu para a Igreja sejam remexidas, mas outras reformas viro.

NICOLA OATS, 18 anos
Aluna do ensino mdio, Chile
"Gosto do papa por ele prestar ateno nas desigualdades de classe e cor.  o olhar da justia social."

LETCIA BICIATE, 17 anos
Aluna do ensino mdio, Ipatinga (MG) 
"Fiquei emocionada de ver Francisco descendo do papamvel e se misturando ao povo. Ele quebra os protocolos com naturalidade. Sua postura aqui  uma amostra do que est por vir."

IARA PALMIERI, 39 anos, com a filha Luiza, de 5
Qumica industrial, Rio de Janeiro
''Ele parou o papamvel na minha frente e o povo foi ao delrio. Entendi sua fora. Francisco  capaz de mover multides!

GABRIELA TRISTO, 24 anos
Matemtica, Franca (SP)
"No basta  Igreja dizer qual  a sua posio. Ela precisa explic-la. Acho que Francisco vai dar conta da misso.

BRUNO CERQUEIRA, 17 anos
Aluno do ensino mdio, Rio de Janeiro
"A Igreja precisa se atualizar e deixar a soberba. Esse papa parece estar bem sensvel a isso."

MARIA DA GRAA, 70 anos
Professora, Amarante (PI)
"Tenho certeza de que o papa vai aproximar a Igreja do povo, mas no sei se conseguir mexer em certos vespeiros."

JOS BARBOSA, 46 anos
Padre, Campo dos Goytacazes (RJ)
"O papa ainda no fez nada realmente significativo. Temos de esperar um pouco para ver como caminhar.

AGATHE MUSIOL, 25 anos
Teloga, Alemanha
"Ele exibiu sua simplicidade na janela do Vaticano logo que foi escolhido. No Brasil, est reforando essa boa imagem."

ENEAS DE SOUZA, 78 anos
Aposentado, Caxias (MA)
"Voc percebe que ele  um missionrio s de olhar. Seu comportamento condiz com seu discurso."

ANA CLAUDIA GRACIANO, 43 anos
Advogada, Rio de Janeiro
"A determinao de Francisco me faz acreditar que ele  mesmo a pessoa certa para vencer barreiras e modernizar a Igreja."

GLENDA MEIRA, 33 anos
Advogada, Belm
''Que bom que apareceu algum para combater as regalias no Vaticano. E no  da boca para fora: Francisco d o exemplo.

MARIA EDUARDA RODRIGUES, 15 anos
Aluna do ensino mdio, Recife
"Todos so tratados de igual para igual por Francisco. Ele no olha de cima para baixo. Isso o diferencia da maioria das figuras pblicas que eu conheo.

JOHANA TOVAR, 28 anos
Agente de viagens, Equador
"Fico emocionada s de estar perto desse papa. Que bom que a Igreja est de cara nova."

INS FARIA, 54 anos
Servidora pblica, Rio de Janeiro
"No d para mudar tudo da noite para o dia, mas o bom exemplo do papa j  um bom comeo."

RICARDO RODRIGUES, 18 anos
Estudante de direito, Rio de Janeiro
"Vejo nele o que a Igreja precisa para resgatar a unio dos fiis: a caridade."

MARIANA TANNO, 22 anos
Estudante de medicina, So Carlos (SP)
"Ele traz renovao e enfatiza a ideia de que ostentar riqueza afasta a religio do povo."

RODRIGO RAMIRES, 25 anos
Empresrio, Florianpolis
"A Igreja deveria ser mais liberal em questes como o uso da camisinha, por exemplo. Para mim, se tem algum que pode mexer nos tabus, esse cara  Francisco!

OS ANGELI CUSTODI  BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS
Em Roma, a piada  que o papa Francisco s no tem misericrdia em relao a um tipo de pobre coitado: aquele encarregado de zelar pela sua integridade fsica. Os Angeli Custodi, ou Anjos da Guarda, como so chamados os seguranas do pontfice, previam que a visita do chefe ao Brasil seria cheia de imprevistos  dadas a personalidade afvel de Francisco, a crnica desorganizao brasileira e a extrema cordialidade nacional. No entanto, ao mudar um dos seus primeiros trajetos, a fim de corresponder ao entusiasmo das pessoas que queriam v-lo mais de perto, Francisco deixou os Anjos da Guarda  beira de um colapso nervoso. O pnico se instalou de vez quando as mais afoitas comearam a tocar no papa, paroxismo da mxima de So Tom, segundo a qual  preciso ver  e apalpar  para crer. O comandante da segurana, Domenico Giani, s no perdeu os cabelos de tanta preocupao porque j no os tem. Ele  o calvo, de culos, que est sempre ao lado de Francisco (ou quase sempre). "O papa  imprevisvel e desenvolto. Ainda temos de nos conhecer melhor", disse um dos policiais do Vaticano  imprensa da Itlia.  uma frase elegante para definir a situao mais perigosa enfrentada por um guarda-costas ou assemelhado: a de tentar proteger algum que no d a mnima para a sua prpria segurana. Logo depois do desembarque tumultuado no Rio de Janeiro, os Anjos da Guarda reuniram-se, retraaram os seus planos de contingncia e comunicaram o seu desconforto a Francisco. Disseram-se felizes por ele ser como   inclusive na condio de catlicos, um dos pr-requisitos para fazer parte do Corpo della Gendarmeria dello Stato della Citt del Vaticano, tal como a altura mnima de 1,78 metro , mas o lembraram de que eram os responsveis pela sua vida e de que no se podia descartar que um desequilibrado cometesse um atentado. Apesar dos sustos cariocas, os italianos consideram que ser um milagre se o papa diminuir a sua imprudncia a ponto de satisfazer plenamente as exigncias dos Anjos da Guarda. Assim como foi um milagre Joo Paulo II ter escapado vivo dos tiros disparados pelo turco Ali Agca, em 1981.
MRIO SABINO, DE PARIS

COM REPORTAGEM DE RODRIGO RANGEL


3. RETRICA DA HONESTIDADE
Dirigindo-se s pessoas como um amigo e, acima de tudo, transmitindo sua integridade moral, Francisco arrebatou os brasileiros com pronunciamentos a um s tempo leves e profundos.
RINALDO GAMA

Muitas vezes, a histria  esse modo de o passado se fazer sempre presente  despreza o calendrio. O sculo XX, na viso hoje muito difundida do historiador ingls Eric Hobsbawm (1917-2012), comeou tarde, em 1914, na I Guerra Mundial, e terminou cedo, em 1991, com o fim da Unio Sovitica. Tambm no caso do pontificado do papa Francisco  razovel falar em um descompasso dessa ordem. Sua escolha para o trono de Pedro foi anunciada ao mundo em 13 de maro deste ano. No entanto, no  exagero afirmar que a eleio do ento arcebispo de Buenos Aires Jorge Mrio Bergoglio teve incio numa prvia do conclave, a Congregao-Geral dos Cardeais. Nela, Bergoglio, falando a seus pares, numa apresentao depois rabiscada em um rascunho escrito com letra mida que hoje grassa pela internet, enumerou quatro pontos que deveriam nortear a Igreja  vale dizer, a atuao do novo papa. O pronunciamento foi determinante para sua eleio.
     As anotaes do argentino representavam um autntico "programa de governo", este que Bergoglio vem ratificando em palavras e aes  e que ampararam seus discursos no Brasil. Naqueles quatro itens encontra-se, por inteiro, a retrica de Francisco. O que ele pontificava era verdadeiramente simples.
1- A Igreja deveria se entregar  tarefa da evangelizao, "sair de si prpria" e "ir at as periferias, no apenas geogrficas, mas tambm existenciais".
2 - Quando no faz isso, ela se torna "autorreferencial e fica doente".
3- "A Igreja, quando  autorreferencial, deixa de ser o mysterium lunae, e d lugar a esse mal to grave que  a 'mundanidade espiritual'", o pior que pode ocorrer a ela, observou Bergoglio, citando o telogo jesuta francs Henri de Lubac (1896-1991), que teve papel seminal no Conclio Vaticano II. Para ele, existiriam duas imagens da Igreja: a "evangelizadora, que sai de si prpria, a Dei verbum religiose audiens et fidenter proclamans" ("Ouvindo religiosamente a palavra de Deus e proclamando-a com confiana"  referncia ao incio de um documento do Vaticano II), e a "mundana, que vive em si prpria, de si prpria e para si prpria". 
4- "Pensando no prximo papa", o cardeal frisou que ele precisaria ajudar a Igreja "a ser a mo fecunda que vive 'da doce e reconfortante alegria da evangelizao'." 

     Como membro da Companhia de Jesus, a combativa ordem fundada por Incio de Loyola (1491-1556), Bergoglio considera-se, antes de tudo, um missionrio  assim, no surpreende sua insistncia para que o sucessor de Bento XVI fortalecesse o carter evangelizador da Igreja. Os brasileiros puderam ver de perto como Francisco segue o que pregara. E como faz isso com um misto de leveza e vigor, simplicidade e capacidade de convencimento (veja na pgina anterior trechos e comentrios de alguns dos discursos feitos por Francisco no Brasil). O alcance das palavras de Francisco parece decorrer de uma soma de atributos: apoiadas numa linguagem coloquial, elas transmitem a certeza de estar sendo ditas por algum honesto. " ao carter moral que o discurso deve quase todo o seu poder de persuaso", escreveu Aristteles na obra em que estuda a retrica, a arte da oratria. A construo de uma imagem de si capaz de garantir o xito de um pronunciamento  aquilo que os gregos chamavam de ethos  no se distanciaria, portanto, da honestidade do orador. 
     "Bergoglio  o pontfice dos atos simples e da conversa cotidiana, diferente de Joo Paulo II, papa de grandes gestos, como beijar o cho dos pases que visitava, e de Bento XVI, mais contido, tmido, e intelectualizado", diz monsenhor Antonio Luiz Catelan Ferreira, assessor da CNBB e professor de teologia da PUC-PR. "Ele se dirige s pessoas como um amigo e, com isso, consegue traz-las para perto de si  do ponto de vista afetivo e das ideias que defende." Quando se olha a construo milenar da Igreja Catlica, o papa dos pobres, com apenas pouco mais de quatro meses de mandato, ganha contornos extraordinrios. "Francisco representa uma sntese das duas grandes matrizes espirituais do catolicismo, a teologia da cruz, que vem de So Boaventura, inspirado em So Francisco, e a teologia da justia, de So Toms de Aquino, que insiste na ao sociopoltica", afirma o cientista da religio Afonso Soares, professor livre-docente da PUC de So Paulo. "Ele caminha nessas duas direes.

AS PALAVRAS DE BERGOGLIO
Como entender as ideias e a postura do papa por meio de seus discursos no Brasil

NA LNGUA DOS JOVENS
"Cristo abre espao para eles, pois sabe que energia alguma pode ser mais potente que aquela que se desprende do corao dos jovens quando conquistados pela experincia da sua amizade... Cristo 'bota f' nos jovens e confia-lhes o futuro de sua prpria causa: 'Ide, fazei discpulos'. Tambm os jovens 'botam f' em Cristo. Eles no tm medo de arriscar a nica vida que possuem porque sabem que no sero desiludidos." 
 Em sintonia com a linguagem empregada j na preparao da Jornada Mundial da Juventude, que incluiu uma atividade chamada Bote F, o papa Francisco se valeu da expresso, coloquialssima, em seu primeiro pronunciamento no Brasil. Para no parecer pernstico, o santo padre fez uma citao bblica sem explicit-la, um recurso recorrente em seus discursos  "Ide, fazei discpulos"  uma passagem do Evangelho de Mateus.

 A MO SEMPRE ESTENDIDA
"Abraar. Precisamos todos aprender a abraar quem passa necessidade, como So Francisco. H tantas situaes no Brasil e no mundo que reclamam ateno, cuidado, amor, como a luta contra a dependncia qumica. (...) A chaga do trfico de drogas, que favorece a violncia e semeia a dor e a morte, exige da inteira sociedade um ato de coragem. No  deixando livre o uso das drogas, como se discute em vrias partes da Amrica Latina, que se conseguir reduzir a difuso e a influncia da dependncia qumica. (...) Estendamos a mo a quem vive em dificuldade, a quem caiu na escurido da dependncia." 
 Dentro de uma instituio que homenageia o santo que o inspirou na escolha do nome, o papa citou o exemplo de So Francisco, que abraou um leproso, para demonstrar como v a questo do combate s drogas  declarando-se contrrio  sua liberao. A postura recebeu crticas das correntes que trabalham nessa direo. 

CONTRA A CORRUPO
"Aqui, como em todo o Brasil, h muitos jovens. Vocs, queridos jovens, possuem uma sensibilidade especial diante das injustias, mas muitas vezes se desiludem com notcias que falam de corrupo, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu prprio benefcio. Tambm para vocs e para todas as pessoas repito: nunca desanimem. (...) A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocs os primeiros a praticar o bem, a no se acostumarem ao mal, mas a venc-lo."
 Em uma aluso clara aos recentes protestos contra a corrupo e os maus polticos nas ruas do Brasil  afinal, a poltica  a arte de promover o bem comum , o pontfice incentivou os jovens a no se deixar vencer pelo conformismo, servindo de modelo de oposio ao mal.

SEM ENROLAO
"Deus  a nossa esperana!  verdade que hoje mais ou menos todas as pessoas, e tambm os nossos jovens, experimentam o fascnio de tantos dolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperana: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. (...) Queridos irmos e irms, sejamos luzeiros da esperana! (...) Confiemos em Deus! Longe d'Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperana, se esgota. Se nos aproximarmos d'Ele, se permanecermos com Ele, aquilo que parece gua fria, aquilo que  dificuldade, aquilo que  pecado, se transformar em vinho novo de amizade com Ele." 
 Com jogos de palavras e imagens muito simples  esperana/luz; vinho/entusiasmo , o papa buscou, como  de seu feitio, promover o reencontro dos fiis com Deus, para que evitem o pessimismo, a "cara de quem parece num constante estado de luto", como j disse anteriormente. 

Luiz PIMENTA, 17 anos
Aluno do ensino mdio, Taubat (SP)
"Acho que esse papa vai nos dar abertura para o dilogo e nos reaproximar da f."

JOS GALANTE, 64 anos
Aposentado, Rio de Janeiro
"Vejo uma semelhana importante entre Francisco e Joo Paulo II: a ligao com o povo."

KELLY PEREIRA, 30 anos
Freira, Sorocaba (SP)
"O papa Francisco acrescentou um componente novo  Igreja: a alegria latino-americana.''

LEONARDO RABELLO, 18 anos
Aluno do ensino mdio, Rio de Janeiro
"A Igreja estava muito apagada. Francisco  exatamente o que ela precisava para sair do marasmo.

CAMILA VELOZO, 30 anos
Publicitria, Belo Horizonte
" Vou  missa s de vez em quando, mas esse papa atraiu minha curiosidade pelo modo simples com que se dirige s pessoas. Isso  raro. Ele pode fazer muito bem  Igreja.

FERNANDA PIOVESANO, 30 anos
Paranata (MT)
"Esse papa j est conseguindo resgatar a imagem da Igreja e tem tudo para renov-la."

ANGELA PASCUAL, 56 anos
Empresria, Niteri 
"Ele rene as qualidades que todo mundo espera de um grande lder:  inteligente, carismtico e humano."

THATY ALMEIDA, 20 anos 
Estudante de servio social, Niteri
"Gritei um 'Chiquinho!' quando ele passou. Amo a simpatia e a simplicidade desse papa."

RONALDO ARAJO, 38 anos
Religioso, Londrina
"Com o papa Francisco, a Igreja passou a olhar mais para os pobres. Ela no se aproximava tanto deles."

IGOR MARTINS, 18 anos
Estudante de curso pr-vestibular, Rio de Janeiro
"O papa Francisco simboliza uma ruptura, mas mantm o ar conservador que tem espantado muita gente das missas. Tomara que encontre um tom mais afinado com o mundo de hoje."

ALINE ARAJO, 28 anos
Assistente social, Alienas (MG)
"A Igreja nunca vai perder aquilo que sempre a orientou, mas precisa se adaptar. Essa  a mensagem de Francisco."

LETCIA TIVERON, 16 anos
Aluna do ensino mdio, Braslia
"Ele no passa aquela frieza da Igreja,  justamente o contrrio. Francisco fala como as pessoas normais, sem pompa."

CAROLINE ABUS, 15 anos
Aluna do ensino mdio, Martinpolis (SP)
"Esse papa acolhe as pessoas de um jeito que todos os outros integrantes da Igreja, sem exceo, deveriam fazer."

CATHIA DE SOUZA, 22 anos
Designer, Pindamonhangaba (SP)
"A primeira impresso  que o papa quer mesmo resgatar valores perdidos, como pensar no prximo e no bem comum."

IAN BENSI, 18 anos
Estudante de arquitetura, Petrpolis (RJ)
"Bento XVI era mais guiado pela razo; Francisco,  mais pela emoo. E isso realmente contagia quem est perto.

GUILHERME SOUZA, 25 anos
Supervisor de qualidade, Jundia (SP)
"As vestimentas e carros mais simples que ele usa so um smbolo do que queremos na Igreja."

PAOLA GIBRAN, 20 anos
Estudante de economia, Belo Horizonte
"Os catlicos precisaram de algum como ele, capaz de enfatizar a palavra de Deus."

AYRTON PORTILLO, 21 anos
Estudante de engenharia, Paraguai
"Bento XVI  sbio, mas Francisco, alm de sbio,  carismtico. E ele realmente vive o que prega."

HELOSE DAL ZOT, 15 anos
Aluna de ensino mdio, Curitiba
"Ele transmite mais energia do que Bento XVI. E isso  inspirador para os jovens."

NEIVA PICININI, 56 anos
Professora, Rio de Janeiro
"Me parte o corao no poder comungar por ser divorciada. E olha que at casei virgem! A Igreja precisa ser menos dura. Esse  o grande desafio."


4. ENSINANDO A REZAR
A presidente Dilma Rousseff tenta pegar carona na visita do papa ao mostrar o governo petista como protagonista de uma cruzada global contra a misria.
DANIEL PEREIRA

     O ex-presidente Lula j quis dar lies aos Estados Unidos sobre o funcionamento do capitalismo. A presidente Dilma Rousseff, em visita  Alemanha, tambm usou um tom professoral para tutorar a primeira-ministra Angela Merkel sobre como tirar a Europa da crise econmica. Em bom portugus, esses acessos de empfia vazia que beiram a insanidade so chamados de tentativas de "ensinar o pai-nosso ao vigrio". Por pouco, mas s por pouco mesmo, o papa Francisco se livrou de voltar para o Vaticano com uma lista de lies de casa passadas por sua anfitri no Brasil. Dilma no ensinou o papa a rezar, mas no escapou do ridculo ao propor a Francisco, como se ele fosse um reles diretor de ONG, uma parceria em que o papel dele seria espalhar pelo mundo as "experincias brasileiras de combate  misria". O santo  padre, pelo menos, conseguiu disfarar seu constrangimento. Logo ele, um jesuta, ordem lendria por espalhar pelos quatro cantos do mundo os ensinamentos de Cristo, convocado para pregar o petismo eleitoreiro. Ainda bem para o Brasil que ningum lembrou que o petista Jos Graziano, diretor-geral da FAO, rgo das Naes Unidas para assuntos de alimentao, j espalha essas "experincias brasileiras" mundo afora  a ltima foi aconselhar os miserveis famintos a comer gafanhoto, formiga e outros insetos.  uma vergonha para o Brasil. E para a FAO, que, nos anos 60, quando privada das geniais ideias petistas, teve de se contentar em, com a ajuda do agrnomo americano Norman Borlaug, fazer a "revoluo verde", que salvou a vida de 1 bilho de famintos. Mas o que  isso em comparao com um bom prato de alta gastronomia insetvora preparado pelo chef Graziano, no  mesmo? 
     Acossada por protestos populares, pelo desempenho econmico pfio e pela queda vertiginosa de popularidade, Dilma fez de seu discurso de onze minutos uma tentativa de reao poltica. Aproveitou-se da presena de um convidado carismtico para tentar sair das cordas e conter a sangria de seu prprio governo. O Palcio do Planalto temia que houvesse um recrudescimento dos protestos com a chegada do papa Francisco ao pas. A presidente disse que as manifestaes nas ruas eram consequncia dos avanos econmicos e sociais registrados nos dez anos de governo do PT  e no fruto do descontentamento generalizado com os governantes de turno e a precariedade dos servios pblicos. "Sabemos que podemos encarar novos desafios e tornar nossa realidade cada vez melhor. Esse foi o sentimento que moveu, por exemplo, nas ultimas semanas, centenas de milhares de jovens a ir s ruas. Democracia, como sabe Vossa Santidade, gera desejo de mais democracia, incluso social provoca cobrana por mais incluso social, qualidade de vida desperta anseio por mais qualidade de vida", disse Dilma, apresentando-se como motor  e no alvo  dos protestos. 
     A presidente tambm retomou a cantilena petista em defesa de uma cruzada planetria para erradicar a pobreza, reproduzindo em escala global programas de transferncia de renda como o Bolsa Famlia. "O Brasil muito se orgulha de ter alcanado extraordinrios resultados nos ltimos dez anos na reduo da pobreza, na superao da misria e na garantia da segurana alimentar  nossa populao. Fizemos muito e sabemos que ainda h muito que ser feito. Nesse processo, temos contado com a profcua parceria com a Igreja." Dilma aproveitou o embalo e caiu na vala estreita da falsa dicotomia entre austeridade fiscal e bem-estar da populao, que, na cabea dos idelogos petistas, so excludentes  quando todos os dados e experincias histricas mostram que a vida do povo s melhora quando os governos deixam de desperdiar o dinheiro dos contribuintes. Disse Dilma: "Estratgias de superao da crise econmica centradas s na austeridade, sem a devida ateno aos enormes custos sociais que ela acarreta, golpeiam os mais pobres e jovens, que so pelo mundo afora as principais vtimas do desemprego". O papa acompanhou o discurso da anfitri concordando discretamente, s vezes, com a cabea. Ao discursar logo em seguida, e gastar dois minutos a menos do que Dilma, ele no abordou nenhum dos temas centrais da fala da presidente. Ou seja: recusou o convite ao debate poltico e se manteve no papel de evangelizador. Piedoso, Francisco deve ter conscincia de que os polticos, muitas vezes, no sabem o que dizem e quase sempre dizem o que no sabem.

ANA CAROLINA BRUST, 22 anos
Estudante de administrao, Niteri
"Ao abrir mo de luxos e ostentaes, Francisco melhorou a imagem da Igreja at perante os no catlicos.

CAMILA CASSUND, 25 anos
Consultora ambiental, Fortaleza
"A forma como ele brincou sob o frio e a chuva no meio da multido, em Aparecida, foi cativante."

RITA BARGAS, 65 anos
Aposentada, Niteri 
"Acho que essa postura de ficar prximo ao rebanho vai atrair os jovens para a Igreja"

DANIELE DO PRADO, 24 anos
Fisioterapeuta, Catalo (GO)
"O papa Francisco quebrou barreiras ao realar a humildade e tratar a todos como iguais."

HENRIQUE REGENT, 24 anos
Estudante de administrao, Niteri
"Com seus gestos e palavras, esse papa nos faz lembrar que Jesus veio para servir e no para ser servido.

JOYCE OLIVEIRA, 23 anos
Professora de ingls, So Joo da Barra (RJ)
''Antes dele, a Igreja estava mais envolvida em escndalos de corrupo do que com as pessoas."

ANA CAROLINA MENDES, 30 anos
Administradora, Rio de Janeiro
"Pr a casa em ordem, como o papa est fazendo,  essencial para atrair de volta os fiis."

DEUCELI KWIATKOWSKI, 42 anos
Freira, Campo do Tenente (PR)
"Ele deu um sopro de esperana  Igreja. Tenho certeza de que atrair muita gente em seu papado."

ROGRIO AZEVEDO, 58 anos
Funcionrio pblico, Rio de Janeiro
"Ele tem um ar moderno e despojado. J est conseguindo abrir algumas frestas na Igreja."

GIOVANNI VALIOTO, 19 anos
Estudante de administrao, So Paulo
" difcil imaginar mexer em tabus como o casamento gay e o divrcio, mas sua postura dura contra a pedofilia j  uma novidade."


